flor

Ele existe nesta cidade como tantos outros como ele existem em tantas cidades. Bem vestido, geralmente de calças de fato, de sapatos e de camisa branca, anda por entre as multidões vendendo flores, tentando, de certa maneira, acordar corações, juntar amores. E algum dinheirito para si e para a sua família, imagino. Não o conheço, … Ler mais

da janela

da janela vejo a lua vejo a rua vejo-a nuavejo ela e ela ali e ela a mim e ela assimsem mim sem ela

pela vida, cidade

Anda pela cidade devagar, como se a cidade só andasse se ele andasse também, como se ela não pudesse respirar, como se ele fosse os pulmões que ela tem. E ele fala assim, envergonhado, com medo de falar, vai-se chegando aos outros encurvado, numa forma tremida que parece venerar. Anda pela cidade às escondidas, como … Ler mais

abril

Pergunto ao vento que passaSomos livres de sonharpelos cornos da desgraçade combater a cantar?Mapa do mundo distante,dirão canção de liberdade…Do nosso corpo mais adiante,em cada rosto, igualdade.

henrique

Fazes falta nas festas, nos lugares cheios de gente, nos espaços vazios, nos cantos, nas renúncias, nas canções, naqueles inícios de tarde e fins que não chegavam por tu estares e prolongares a vida, nas noites todas, nas manhãs que não têm nada, nos dias de sol, nos de chuva, nos de tudo. E a … Ler mais

artista

«Já pedi a conta à menina, mas ela não vem.» Vim eu sem saber como. Parei neste tasco na Nacional. Mesa para um. Pode ser aqui. Boa noite. Bebia vinho, olhava a CMTV e, de vez em quando, lá desenhava. Uma obra de arte. Obrigado. Estava só a passar o tempo. Sou designer, fiz isto … Ler mais

sessenta e três

Abraço beijinho copo de vinho branco já para a mesa ansiedade saudade força lareira sofá o que tenho inteira cansaço dores nos ombros dores nas mãos só uma sesta jardim e assim são os sonhos amor canários acordar de manhã ir embora e agora mamã e agora? suspiro ao final do dia hora de almoço … Ler mais

maringá menino

Há tanto tempo que ele anda por cá, que eu o vejo por aqui a caminhar. A sua casa é o Maringá. É sempre onde ele está, quando o quero encontrar. Nunca fui ter com ele, não sei como se chama, nunca lhe disse nada. Sei que, para mim, aquele lugar, para ele, é morada. … Ler mais

oito

Oito anos deste querido, badocha, amigo, vadio, mimoso, malandro, lindinho, sacrista, fofinho, estúpido, gordo, pirata, criança, terrorista, tolo, cavalo, panças, preto, sacana, menino, sapato, pirralho, palerma, compincha, patife, amor.

o meu tio tonito

António Maria Andrino Pereira. António Maria. Tonito. Tio Tonito. O meu Tio Tonito. Olho para ele e vejo, sempre vi, um exemplo de força e de alegria e de liderança e de adulto e de criança que leva para a sua vida e leva para a vida de quem está com ele. Com ele, tudo … Ler mais

ao canto do outono

À esquina do Inverno, vem o frio e ela também. Ali, junto à rodoviária, bem no centro da cidade que nos tem. Ao fundo da avenida, lá está ela com as castanhas, dando calor à vida. Quem lá passa, lá a escuta. Ali, entre o castelo e o rio, na sua luta. E apregoa como … Ler mais

sete, trinta e nove

À minha mãe, ao meu pai. A quem me ouve, a quem me lê, a quem me abraça, tudo passa e eu só vejo passar e eu não sei porquê, a quem me inquieta, a quem me sossega, quem me sossega? se é tudo seta, a quem me diz o caminho, a quem não me … Ler mais

todas as coisas que há

Ele está sempre feliz – pelo menos, aparenta. E aparentar já é meio caminho andado para estar. (De vez em quando, lá temos de nos obrigar.) Porque ele tenta. Parece que inventa qualquer coisa feliz que lhe diz que a vida não se vive de outra maneira que não desta, na brincadeira. Brinca com as … Ler mais

o bastinhos

O meu tio Bastos sempre esteve lá. Mal se dava por ele, mas ele estava lá, connosco. A ajudar nos grelhados, a conversar sobre a escola, a mandar umas larachas sobre o que fosse, ele estava lá. Calmo, atento, simpático, quase envergonhado, quase gozão. Estava sempre tudo bem. Sempre com os olhos felizes e com … Ler mais

andré contra andré

Não está nada partido. Quase nada. Talvez uma luxação. Talvez. Não se vê. Não aqui. Bati com a mão fechada numa parede. Ninguém me bateu. Só eu. Tendo a ser violento comigo quando não sei lidar com o que tenho. Esmurro paredes, mordo dedos, dou chapadas no peito. Só isso. Só. Não o deveria fazer, … Ler mais

se vejo, magoa

Se vejo, magoa.Se não, também.É dor que atraiçoa,é dor que vemassim de mansinho(se fosse promessa…),devagarinho,tão depressa!E eu sem saberlidar com o jeitode a ter a batercá dentro do peito.Como se faz?Devo lutar?Fugir? Ir atrás?Ou só não ligar?Mas a dor arranha– ela sabe andar nisto.Tem aquela manha,mas eu não desisto.Ou só digo que nãopara não me … Ler mais

quando morre a imortalidade, ou qualquer coisa assim

Quando o meu avô morreu, o meu pai deixou de ser imortal. A existência do meu avô impedia a inexistência do meu pai. Assim que o meu avô deixou de existir, o meu pai perdeu a protecção, ilusória, bem sei, de que não morreria – não estaria na vez dele, na vez de nenhum filho … Ler mais

marrazes, 87

Foi ontem a Gala de Aniversário do Sport Clube Leiria e Marrazes. Uma vez mais, não sei bem por que razão, voltaram a convidar-me para apresentar a festa. Dar uns bitaites e tal. Claro que não ofendi ninguém – não é a minha cena. Eu só continuo a aceitar fazer isto, obviamente, por aquilo que … Ler mais

o inferno não sou eu

O inferno não sou eu,é o outro que me vê.Mas se o olhar não é meu,é de quem? É o quê?Será sempre de alguémfora de mim?Ou será de ninguéme eu é que penso que sim?Talvez não seja nada.Talvez não seja precisoinventar-me uma morada.O inferno não sou eu,muito menos paraíso.

quem sou eu se eu não sou

Quem sou euse eu não sou o outroque é igual a mim?Direi que sou eusó por ser eu,só porque sim?Ou direi que sou o outro,mesmo sem razão?Quem me dizque o outro não sou eu?Sou? São?O outro são tantosque eu não poderia sermais do que um.Se não sou todos,quantos sou eu?Serei nenhum?

para além do bem e do mal

Voltei à escola. Por prazer, apenas. Há muito tempo que eu queria voltar. Era um sonho, ainda é, pelo menos até perceber que não percebo nada de Anaxágoras, Xenófanes ou Tales de Mileto e desejar ter ficado na minha caverna, sossegadito, a ver as sombras a passar. Viram o que eu fiz aqui? Incrível. É … Ler mais

cortejo de um homem só

Ele sai de casa bem vestido, fato engomado, mãos nos bolsos ao comprido, como se fosse cantar o fado. Não canta, pouco fala, só um bom dia ou um boa tarde de vez em quando, em surdina, e lá vai ele andando, virando a esquina. Sempre muito direitinho e elegante, como se desfilasse devagarinho numa … Ler mais

a que sabe um beijo

a vinhoa cigarroa carinhoa escarroa sopa de feijãoa qualquer coisa da modaa cãoa fodaa pastilhaa caracola ervilhaa sola sonhoa solidãoa bafo medonhoa bocado de pãoa mentaa couvea tudo o que se inventaa tudo o que houvea jesus cristoa quem acredita em shivaa xistoa salivaa vão de escadaa versos e prosasa nadanunca a rosas

parece que sou um rio

Tudo fica vazio.Nada acontece.Pareceque sou um rioque, num instante,desaparece.E os peixinhoscá dentro a saltitar,todos juntos, sozinhos,sem respirar.Sou um riode vazioa transbordar.

em vez de coração

Raramentevejo o querealmenteimporta.Sou uma visãoque, em vez de coração,vê não.Sou uma visãomorta.

o meu pai e o meu avô

O meu pai e o meu avô. Foram eles que fizeram de mim o benfiquista que sou. Ainda são. Eu vou sendo o que me lembro do meu avô de rádio encostado ao ouvido, o que vou tendo do meu pai de abraço dado comigo. Não sou do Benfica por razão, por qualquer motivação ponderada. … Ler mais

não é um ministro

O João Galamba acalmou a ex-CEO da TAP que, antes da reunião, estava «muito nervosa» e acalmou a sua chefe de gabinete que, quando lhe ligou, estava «muito perturbada, desesperada». O João Galamba não é um ministro, é um Victan.

talvez não seja nada

O César Mourão é muita gente, toda a gente que ele conhece e que não, que lhe aparece de repente na rua, no teatro, na rádio, na televisão. O César sempre cantou, sempre sem querer ter o carimbo de músico ou de cantor, sempre inventou e nessas invenções lá ia criando aquilo que, mesmo não … Ler mais

conhecido por serviços secretos

Com o Caso Galamba (o da porrada do seu adjunto; não o do pedido de demissão), ficámos a saber que houve intervenção do SIS – Serviço de INFORMAÇÕES DE SEGURANÇA, mais conhecido por Serviços SECRETOS. Ora bem, segundo a Comunicação Social, sabemos que o agente dos Serviços SECRETOS fez um telefonema, sabemos a que horas … Ler mais

a bola à frente da baliza

Luís Montenegro, líder do maior partido da oposição, acusa António Costa de querer eleições antecipadas. Sim. Luís Montenegro, líder do maior partido da oposição, está a chorar porque António Costa lhe está a pôr a bola à frente da baliza para ele marcar golo. E ele acusa, lamenta e chora. António Costa tem tanta certeza … Ler mais

ainda mais perto

António Costa, ao rejeitar o pedido de demissão do ministro João Galamba, está a aceitar a presença e o trabalho de um ministro que não se acha capaz de exercer as suas funções. Por outro lado, tendo em conta a proximidade de João Galamba com Pedro Nuno Santos, António Costa está a cumprir a máxima … Ler mais

quis saber quem sou

quis saber quem soue ainda hoje não seiandei por onde vouainda não me encontrei asas de ventocoração de mareu bem tentonão me consigo encontrar o povo é quem mais ordenamas onde está? que não o vejoeu não sou coisa pequenasou desejo o mundo pula e avançapara onde? a que preço?fui vontade de criançajá não me … Ler mais

uma história infeliz

Foi triste ver o senhor Ruy de Carvalho. Não por estar perto do fim, não por estar a perder faculdades, não por ter sido bonito. Foi triste porque o senhor Ruy de Carvalho não estava sozinho em palco. A história era dele, mas o protagonismo não foi. Com ele, a tentar ter o protagonismo que … Ler mais

saio à minha mãe

Saio à minha mãe. Nas olheiras cavadas e na beirinha da tristeza quase permanente, no medo de que algo aconteça, na ansiedade e na vontade de abraçar. Saio à minha mãe naquele jeito preocupado de olhar. Também no aconchego, no apego ao sonho e ao vulgar. Também no medo de acabar, até o fim. Saio … Ler mais

a biblioteca de estaline

Este livro humaniza Estaline? «Humaniza, sim. Claro que há um perigo nisso.» As palavras são de Geoffrey Roberts, autor do livro «A Biblioteca de Estaline». Ora bem, este livro humaniza Estaline porque Estaline era um ser humano. Tal como Hitler, Mussolini e Putin. Tal como Jesus, Mandela e Gandhi. Todos seres humanos. Nenhum deles monstro, … Ler mais

dentro de uma palavra só

O meu gato tem um talento incrível para fazer asneiras. Ainda agora acabou de atirar um cesto com a minha carteira, os meus óculos de sol e uma caneta ao chão. Foi para cima da mesa na bisga porque eu não recebi com amor aquelas catanadas dos seus dentinhos nos meus braços. E depois deita-se … Ler mais

mais uma memória

1987. Vim para Leiria em 88. Com três anos, ainda não bebia cerveja. Pouco faltava. Com quinze, começava a sair e a beber. Só um bocadinho, mãe. Shots, que estupidez, que saudades. E uma imperial. Outra. Mais outra. Nos Filipes, claro, o lugar mais rock n’roll da minha adolescência que ainda é, com a mesma … Ler mais

tudo em todo o lado

Ainda não vi «Tudo em Todo o Lado ao Mesmo Tempo». Mas vi «Indiana Jones e o Templo Perdido» mais de duzentas vezes. Sem exagero. Quando andava na quarta classe, chegava a casa, pegava na cassete VHS e via o filme. Todos os dias. Todos. Os. Dias. E obrigava toda a gente que estivesse comigo … Ler mais

não aleija ninguém

O movimento pela linguagem inclusiva, seja lá isso o que for, diz que o O é machismo tóxico, que o A é feminismo liberal as mulheres é que são inteligentes sexo fraco mas no fundo forte coitadinhas e que o E é neutro e não aleija ninguém. A verdade é que, por vezes, o O … Ler mais

um homem vulgar

Vim a Lisboa. Consulta de Psiquiatria, nada de mais. Estacionei o carro e procurei um sítio onde almoçar. Ao pé da Penthouse, onde trabalhei e que já não existe, sim, javardice, havia uma tasca, aonde ia todos os dias. Já não há. Desilusão. Segui pela rua, uma porta aberta, por que não? Tasca, ainda mais … Ler mais

nenhum medo era meu

Perdi todos os medos que tinhaporque nenhum medo era meu.Cada medo que vinhanão era medo,era eu. (Nem a cobardia era minha.Foi ela que me perdeu.)

cativeiro: privação

Uma menor foi raptada por um homem de 48 anos, que a manteve em cativeiro durante oito meses. Para que fique esclarecido, segundo o Dicionário da Língua Portuguesa, «rapto: acto de tirar alguém de casa ou do local onde se encontra, através de violência, de ameaça ou de engano» e «cativeiro: privação da liberdade sem … Ler mais

uma espécie de âncora

Ligo a televisão apenas para me dar uma noção de tempo. Não vejo o que lá está, mas tenho de saber que lá está. Qualquer coisa, não sei o quê, não me interessa, mas está. E o que quer que lá esteja está a viver o mesmo tempo que eu. E eu preciso de saber … Ler mais

a arte tem que ser arte

A arte não tem que ser inclusiva. A arte tem que ser arte. Inclui-se quem sentir a arte como ela, cada uma, é. Não se inclui quem não a sente. A obrigação do que quer que seja na arte é uma contradição da arte em si. Quem diz que a arte deve ser outra coisa … Ler mais

qualquer coisa e um coração

Fiz 38 anos. Não estava à espera. Ainda ontem tinha 18. O tempo é tramado. Passa e nem damos por ele. Pensando melhor, melhor assim, talvez – ele ir passando sem lhe darmos muita atenção. Gostaria de ter tantas idades outra vez. Ou talvez não. O tempo faz o que tem a fazer e eu … Ler mais

o teólogo inteligente

«Bento XVI, o teólogo inteligente.» Esta frase tem sido dita por toda a gente em todo o lugar. Tem graça. Por um lado, ao dizer-se «teólogo inteligente», está a dizer-se que é invulgar os teólogos serem inteligentes. Por outro lado, ao dizer-se «teólogo inteligente», está a assumir-se que há teólogos inteligentes. A Teologia é «a … Ler mais