freud

O meu cão ainda existe.Ele ainda está porque eu ainda o vejoe ele ainda há porque eu ainda o lembro.O meu cão não está mortoporque não se está mortoquando se morre,deixa-se de estar,por isso ele não está morto,mas também não está aqui(vivo? Eu acho que sim,ele não sei).Ele anda por aísem eu saber(talvez por onde … Ler mais

não sei matar

Eu não sei acabar. Não sei acabar um livro, não sei acabar uma relação, não sei acabar nada, não sei matar ou aceitar a morte das coisas. Por não saber matar, não sei aceitar a morte. É qualquer coisa assim. Tenho de escrever sobre isto porque

apenas eu

Se eu não me sinto bem com o meu corpo, e se eu posso mudar o meu corpo, sou livre de mudar o meu corpo e ninguém tem nada com isso. Apenas eu. O problema é haver gente que se sente mal com o corpo dos outros e julga que é livre de fazer lei … Ler mais

vinho também do bom

Oiço dois velhos a lembrar. Um vai buscar o almoço entretanto para dar à mulher acamada e ao filho que come muito – durante a semana, almoça na CERCILEI; ao fim-de-semana, está com os pais. O Frazão já lá ficou em casa, agora não consegue receber ninguém porque tem a casa destruída da tempestade. E … Ler mais

parabéns

Parabéns ao Sporting. Grande jogo do Sporting. Grande reviravolta do Sporting. Não é fácil vencer o Real Madrid – vencedor de 15 Ligas dos Campeões, não, o AC Milan – vencedor de 7 Ligas dos Campeões, não, o Liverpool – vencedor de 6 Ligas dos Campeões, não, o Bayern de Munique – vencedor de 6 … Ler mais

do meu vitorino

Purina Gourmet Revelations Mousse com Frango, Party Mix Ocean Sabor con Salmón, Carbonero y Trucha, Royal Canin Instinctive, Acana Grasslands com Borrego e Pato. Ele quer lá saber. Dêem-lhe uma lata de atum e uma fatia de fiambre, é assim desde pequenino. Eu também não preciso de grande coisa. Só do meu Vitorino. (Não, não … Ler mais

sair

Quero sair, mas não quero sair porque, quando sair, se sair, sei que vou sentir que deveria ter mantido a vontade de não querer sair, mesmo indo mas, não saindo, fico com a vontade de querer sair. (Há vontade de querer ou de não querer? Vontade já não é querer ou não querer? Vontade é … Ler mais

inquisidor mor

O meu amigo (e católico-cristão-ex-padre – isto é relevante, atenção) Abílio Lisboa decidiu, numa das suas crónicas habituais no Jornal de Leiria, escrever sobre… mim – o que só demonstra a sua aptidão para o vazio. É uma Epístola, diz ele. E, como todas as Epístolas, digo eu, está carregadinha de imprecisões. Admiro-te e respeito-te … Ler mais

mulher

Isto não é sobre flores, é sobre igualdade. E não é igualdade de homens e mulheres, porque homens e mulheres não são iguais; é igualdade de direitos e deveres de homens e mulheres. As flores só servem para esconder o cheiro a antigo que ainda há nesta luta que, por mais flores do que luta, … Ler mais

muito lindo

«Vhils não quis receber por quadro de Marcelo: valor vai para artistas emergentes: “Quando o elevador social funciona, transforma gerações.» Jornal Expresso Parece muito lindo mas, além de muito feio, é muito errado. O dinheiro é do Vhils, não é de outro artista. O Vhils, ao não querer o dinheiro, está a dizer que os … Ler mais

ao deus certo

Gostava de saber, a sério, sem merdas, o que raio vão os crentes fazer agora à igreja. A sério, o que vão lá fazer? Agradecer ao deus que provocou esta destruição por ter provocado esta destruição? Ou o deus não existe ou, existindo, não é todo poderoso nem é bom. Ou então os crentes estão … Ler mais

desenrascanço

O que nos salva é o que nos vai deixando na miséria: o desenrascanço. Que se fodam as responsabilidades das entidades responsáveis. Que se fodam as políticas públicas. Que se foda a prevenção, a organização, a resposta. Nós cá vamos continuar a encher carros, a reconstruir telhados e a fazer o que calhar. Por muito … Ler mais

branco

Chamar branco a um branco não é, em si, racismo. Mas chamar branco a um branco com o intuito de o ofender, é entender a palavra branco como ofensa. E a palavra branco só é ofensa para um racista. (Este não é um texto de racismo sobre brancos, mas pode ser que assim os racistas, … Ler mais

queixinhas

O Vini Jr. é um provocador? Pode ser, e eu não condeno isso – até acho que faz falta ao futebol alguma provocação dentro do campo. O Vini Jr. festeja como quiser? Claro, dançando, rindo ou jogando à malha. O Vini Jr. é um queixinhas? Se foi alvo de insultos racistas, acho muito bem que … Ler mais

não são só

As palavras não são só palavras. Mas as palavras que nos têm dito parecem ser. As palavras que as entidades responsáveis (Governo, IPMA, Câmaras, Comunicação Social e outras) nos têm dito são palavras praticamente inúteis. Palavras como calamidade a toda a hora tiram o peso da palavra calamidade quando ela é. Palavras como chuva intensa … Ler mais

mais feio

Tenho medo e não sei se o deva dizer. Mas digo na mesma. Por ter. Pode ser egoísmo à procura de algum consolo noutras palavras que não as minhas, mas tenho. Não quero alarmar ao dizer que tenho medo desta chuva e deste vento que aí vêm esta noite. É só chuva intensa e vento … Ler mais

tentativa de crime

Quem votou em branco, quem votou nulo e quem não votou por vontade, votou André Ventura. Quem votou em branco, quem votou nulo e quem não votou por vontade, não foi neutro, foi cúmplice de uma tentativa de assassinato da liberdade. E os cúmplices também são culpados. O André Ventura perdeu, mas a maioria queria … Ler mais

quando tenho medo

Quando tenho medo, como agora, volto ao tempo em que julgava que não tinha. Esse tempo tinha muitas coisas bonitas que, hoje, são ainda mais bonitas – manias da memória. Uma delas é o MTV Unplugged, dos Nirvana. Estou a ouvi-lo desde que cheguei. Leva-me para lá, para esse tempo onde o medo era tão … Ler mais

em branco

Fala-se dos votos válidos e da abstenção – nem uma palavra sobre os votos que talvez mais nos deveriam fazer pensar: os votos em branco. Quem vota em branco dá-se ao trabalho de ir à urna dizer que, de toda aquela gente, não há ninguém que o represente. Quem vota em branco não se abstém … Ler mais

adilson

A música é uma maravilha, quase tudo o resto é uma vergonha – guião, texto, cenografia, encenação e algumas interpretações. Mas a maravilha da música é batota – a orquestra, dominada pelo Martim Sousa Tavares, dá poder e cama às linhas melódicas das vozes, da guitarra e da percussão em palco. As vozes vão da … Ler mais

culpa negação

Cotrim está a ser acusado de assédio sexual. Isso, por si só, é notícia seja em que momento for, em campanha ou fora dela. O facto de Cotrim estar a ser acusado de assédio sexual não significa que o tenha cometido. O facto de Cotrim negar assédio sexual não significa que não o tenha cometido. … Ler mais

lugar nenhum

Andamos entretidos nesta luta esquerda vs. direita em vez de andarmos a discutir ideias. Nem esquerda nem direita são ideias – são lugares de refúgio para quem não tem a coragem (ou a inteligência) de as ter. Enquanto andamos nesta luta inútil e vazia de lugares, os espertalhões (que são de todos os lugares) vão … Ler mais

o vício dos livros II

Quer ser uma espécie de Manual da Literatura, onde se tenta explicar como se escreve, como se lê, quais as boas e quais as más práticas de escritores e de leitores – obviamente, é impossível explicar qualquer uma destas coisas. Portanto, este livro não passa de um panfleto de curiosidades sobre algumas pessoas que escrevem … Ler mais

bom ou mau

Não queremos perceber, queremos definir quem é bom e quem é mau. E não é fácil definir quem é bom e quem é mau porque não é fácil definir o que é bom e o que é mau. Estas são dificuldades que vêm de uma necessidade que vem de uma ditadura do pensamento que nos … Ler mais

pureza

Quem é português não é criminoso – é o que nos querem dizer. A Lei da Nacionalidade chumbou, e ainda bem. A ideia era retirar a nacionalidade a naturalizados condenados nos dez anos seguintes. Não faz sentido, por uma razão: a verdade. E a verdade diz que o português não é puro. Porque ninguém, de … Ler mais

quem é

Sobre ninguém. Na verdade, sobre alguém que eu nunca vi – eu não ter visto alguém não quer dizer que esse alguém não exista, não seja. Mas há quem seja ninguém, mesmo existindo. E talvez esse alguém, que pode ser ninguém, insista em ser aquilo que é – mesmo que uma negação. As negações também … Ler mais

assentar ilusão

Ainda não há sol, e ele já de pé, em frente a uma parede que ele está a construir. Cimento, pedra, betão, tudo lhe passa pela mão enquanto há gente a dormir. Não está sozinho, tem gente que o acompanha naquele trabalho duro. Ouve-se música que vem de um rádio velho, daqueles da guerra que … Ler mais

mas tão longe

As duas, lado a lado. Hora de almoço, um cigarro na mão e um silêncio que vai sendo intervalado com conversas que vêm de todo o lado, e elas ali, a olhar o chão. Como se procurassem um passado que já lá vai e que não volta – porque o passado nunca volta, porque, se … Ler mais

balada do chão

A minha rua não tem quase ninguém, a não ser toda a gente que a minha rua tem. Um só caminho, estreitinho, um ou outro vizinho que ali faz o dia. Os carros só entram de frente, um ou outro adolescente, pequenas porções de gente, e o meu gato que mia. Além de tudo isto, … Ler mais

os gatos

Ainda não há noite, e ele acaba de chegar. Ainda há garotos a correr, alguns cá fora, escondidos, a fumar. A maioria dos que estão ainda anda pelo recinto da escola como se estivesse a passear. Ele chega descontraído, camisa de manga curta, como os passos que dá, entra no seu pequeno escritório mesmo ao … Ler mais

ele e ninguém

Sozinho, com tanta gente. Bebe a cerveja devagarinho, intermitentemente. A vida dele não é poesia. É qualquer coisa rude, amarga, que lhe acontece todos os dias. Vejo-o caminhar pela cidade sempre sozinho, mas sempre acompanhado pelas pessoas que ele vê e com quem fala. Depois, senta-se no café, como se estivesse rodeado de gente. Vem … Ler mais

desenho

Ele anda deambulando, rabiscando em folhas que lhe aparecem à mão. Ora sentado, ora andando, ele vai sendo e vai estando em cada recordação. Porque são recordações aqueles desenhos que ele faz durante todo o dia. São como pequenos corações que trazem alegria a quem passa pelo seu caminho. Desenha o que lhe aparece, o … Ler mais

ela e a vida

Ela fica ali a tarde inteira. Parece não se mexer. Sentada, na cadeira, a fumar e a beber. Está sempre naquele café junto à estrada. Eu desço a rua, eu subo a rua, e vejo-a sempre a fazer nada. Só ali a existir, a conversar, a sorrir e a tentar passar o tempo, como se … Ler mais

um passado

Tem cara de Adelino. É dos olhos, da boca, do nariz, mas, essencialmente, do nada que ele diz enquanto está ali encostado àquela porta. Tem cara de Adelino. Na verdade, não sei bem por que razão. Mas é como se ele rejeitasse todos os nomes, e aquele não. Adelino, um abraço de velho com menino. … Ler mais

um dia normal

É um dia normal. Não é. É mais um dia, e o fim aqui ao pé. Mais perto. E o caminho. Sozinho. E um deserto. Mais perto. Ainda falta um bocadinho. É viver enquanto dá. Tudo é farpa e tudo é ninho. E a vida é o que há.

o velho no muro

Na esquina, dizendo adeus. Lá está ele, velhote, vivendo enquanto partem os seus. Já não há ninguém da sua idade, da sua geração. Todos partem, ele não. E insiste em ficar, como quem não quer a coisa, como quem nem liga à vida, a observar. Sentado ao sol, num pequeno muro de pedra, vê as … Ler mais

o meu pai

O meu pai conta sempre as mesmas histórias. O meu pai inventa canções. O meu pai está sempre a rir. O meu pai é corações.

era o meu padrinho

Era o meu padrinho. Era um homem forte além de todas as medidas. Era um menino de olhos grandes azuis com medos que lhe vieram do outro lado do mar. Era assim, da forma errada, que se fazia na guerra. Era assim, da forma triste e revoltada, que ele vivia desde o dia em que … Ler mais

volta a leiria

Anda vadio pela rua, e lá anda pela estrada. Ele e uma bicicleta. Mais nada. Ele de colete fluorescente, equipamento obrigatório em cada corrida, passando assim pela gente como se passasse pela própria vida. É uma bicicleta vulgar, mas parece um foguetão que o leva sempre a voar sem nunca sair do chão. Já o … Ler mais

os dois e a noite

Ele e ela, ali os dois, no mesmo lugar. Um lugar pequenino, sobre rodas, a trabalhar. De noite, lá estão eles. Não todas as noites, só algumas, até às tantas, no estacionamento do mercado. Vendem bifanas, cachorros, hambúrgueres, kebabs. Cervejas, águas e sumos. Oferecem conversas e companhias a quem vem da noite ou a quem … Ler mais

sem pregões

Duas douradas, uma escalada, outra não. Choco e lula. Corvina e sardinha de mão em mão. Meu amiguinho, obrigada. E lá vai ela agradecendo, enquanto amanha mais uma pescada. Terças, quintas e sábados, lá está ela na sua banca a vender o peixe que lá tem. Sempre bem apregoada, entre gente que vai e gente … Ler mais

santinho

Ó meu rico santinho,não me leves a dançar,que eu só danço sozinhocomigo a acompanhar. Ó meu rico santinho,isso não é bem verdade.Eu só danço sozinhose for eu pela metade. Ó meu rico santinho,talvez seja confusão,mas eu só danço sozinhose alguém me disser que não.

um dia

Um dia não são dias.Todos os dias não são um.Quantos serão todos os diasquando não sobrar nenhum?

força

Que força tenhopara deixar de ser eupara passar a serum estranho?Não sei se consigo.Se deixo de ser eu,deixarei de estar comigo?Mas força é fraquezapor ser mudança.Sou incertezaque em mim balança.

baloiço

Lembro-me de ser criança,de brincar tão entretidonum baloiço que já não balançaporque agora está partido.