um dia

Um dia não são dias.Todos os dias não são um.Quantos serão todos os diasquando não sobrar nenhum?

força

Que força tenhopara deixar de ser eupara passar a serum estranho?Não sei se consigo.Se deixo de ser eu,deixarei de estar comigo?Mas força é fraquezapor ser mudança.Sou incertezaque em mim balança.

baloiço

Lembro-me de ser criança,de brincar tão entretidonum baloiço que já não balançaporque agora está partido.

da janela

da janela vejo a lua vejo a rua vejo-a nuavejo ela e ela ali e ela a mim e ela assimsem mim sem ela

abril

Pergunto ao vento que passaSomos livres de sonharpelos cornos da desgraçade combater a cantar?Mapa do mundo distante,dirão canção de liberdade…Do nosso corpo mais adiante,em cada rosto, igualdade.

se vejo, magoa

Se vejo, magoa.Se não, também.É dor que atraiçoa,é dor que vemassim de mansinho(se fosse promessa…),devagarinho,tão depressa!E eu sem saberlidar com o jeitode a ter a batercá dentro do peito.Como se faz?Devo lutar?Fugir? Ir atrás?Ou só não ligar?Mas a dor arranha– ela sabe andar nisto.Tem aquela manha,mas eu não desisto.Ou só digo que nãopara não me … Ler mais

o inferno não sou eu

O inferno não sou eu,é o outro que me vê.Mas se o olhar não é meu,é de quem? É o quê?Será sempre de alguémfora de mim?Ou será de ninguéme eu é que penso que sim?Talvez não seja nada.Talvez não seja precisoinventar-me uma morada.O inferno não sou eu,muito menos paraíso.

quem sou eu se eu não sou

Quem sou euse eu não sou o outroque é igual a mim?Direi que sou eusó por ser eu,só porque sim?Ou direi que sou o outro,mesmo sem razão?Quem me dizque o outro não sou eu?Sou? São?O outro são tantosque eu não poderia sermais do que um.Se não sou todos,quantos sou eu?Serei nenhum?

a que sabe um beijo

a vinhoa cigarroa carinhoa escarroa sopa de feijãoa qualquer coisa da modaa cãoa fodaa pastilhaa caracola ervilhaa sola sonhoa solidãoa bafo medonhoa bocado de pãoa mentaa couvea tudo o que se inventaa tudo o que houvea jesus cristoa quem acredita em shivaa xistoa salivaa vão de escadaa versos e prosasa nadanunca a rosas

parece que sou um rio

Tudo fica vazio.Nada acontece.Pareceque sou um rioque, num instante,desaparece.E os peixinhoscá dentro a saltitar,todos juntos, sozinhos,sem respirar.Sou um riode vazioa transbordar.

em vez de coração

Raramentevejo o querealmenteimporta.Sou uma visãoque, em vez de coração,vê não.Sou uma visãomorta.

quis saber quem sou

quis saber quem soue ainda hoje não seiandei por onde vouainda não me encontrei asas de ventocoração de mareu bem tentonão me consigo encontrar o povo é quem mais ordenamas onde está? que não o vejoeu não sou coisa pequenasou desejo o mundo pula e avançapara onde? a que preço?fui vontade de criançajá não me … Ler mais

nenhum medo era meu

Perdi todos os medos que tinhaporque nenhum medo era meu.Cada medo que vinhanão era medo,era eu. (Nem a cobardia era minha.Foi ela que me perdeu.)

encontrando ausência

Podia ir lá para fora,mas não vou.Mas parece que estou lá agora,mas não estou.Como se fossesem sair daqui.Fui eu que me trouxeou fui eu que me fugi?Como se estivessenum e noutro lugare não pudesselá estar.Sou assimem permanência,procurando por mim,encontrando ausência.

se um dia a juventude

Se um dia a juventude voltassee me dissesse «voltei»,talvez eu a olhasse,a despisse, a beijassee ficasse onde fiquei.Ela veio e eu faleicom ela como se fosseuma conversa vulgar.Ela voltou e só trouxeo que eu sabia lembrar.Tudo o resto ficoulá no lugar do passadoonde também está quem eu soue não só o lembrado.Que lembrança ficou de … Ler mais