quem é

Sobre ninguém. Na verdade, sobre alguém que eu nunca vi – eu não ter visto alguém não quer dizer que esse alguém não exista, não seja. Mas há quem seja ninguém, mesmo existindo. E talvez esse alguém, que pode ser ninguém, insista em ser aquilo que é – mesmo que uma negação. As negações também … Ler mais

assentar ilusão

Ainda não há sol, e ele já de pé, em frente a uma parede que ele está a construir. Cimento, pedra, betão, tudo lhe passa pela mão enquanto há gente a dormir. Não está sozinho, tem gente que o acompanha naquele trabalho duro. Ouve-se música que vem de um rádio velho, daqueles da guerra que … Ler mais

mas tão longe

As duas, lado a lado. Hora de almoço, um cigarro na mão e um silêncio que vai sendo intervalado com conversas que vêm de todo o lado, e elas ali, a olhar o chão. Como se procurassem um passado que já lá vai e que não volta – porque o passado nunca volta, porque, se … Ler mais

balada do chão

A minha rua não tem quase ninguém, a não ser toda a gente que a minha rua tem. Um só caminho, estreitinho, um ou outro vizinho que ali faz o dia. Os carros só entram de frente, um ou outro adolescente, pequenas porções de gente, e o meu gato que mia. Além de tudo isto, … Ler mais

os gatos

Ainda não há noite, e ele acaba de chegar. Ainda há garotos a correr, alguns cá fora, escondidos, a fumar. A maioria dos que estão ainda anda pelo recinto da escola como se estivesse a passear. Ele chega descontraído, camisa de manga curta, como os passos que dá, entra no seu pequeno escritório mesmo ao … Ler mais

ele e ninguém

Sozinho, com tanta gente. Bebe a cerveja devagarinho, intermitentemente. A vida dele não é poesia. É qualquer coisa rude, amarga, que lhe acontece todos os dias. Vejo-o caminhar pela cidade sempre sozinho, mas sempre acompanhado pelas pessoas que ele vê e com quem fala. Depois, senta-se no café, como se estivesse rodeado de gente. Vem … Ler mais

desenho

Ele anda deambulando, rabiscando em folhas que lhe aparecem à mão. Ora sentado, ora andando, ele vai sendo e vai estando em cada recordação. Porque são recordações aqueles desenhos que ele faz durante todo o dia. São como pequenos corações que trazem alegria a quem passa pelo seu caminho. Desenha o que lhe aparece, o … Ler mais

ela e a vida

Ela fica ali a tarde inteira. Parece não se mexer. Sentada, na cadeira, a fumar e a beber. Está sempre naquele café junto à estrada. Eu desço a rua, eu subo a rua, e vejo-a sempre a fazer nada. Só ali a existir, a conversar, a sorrir e a tentar passar o tempo, como se … Ler mais

um passado

Tem cara de Adelino. É dos olhos, da boca, do nariz, mas, essencialmente, do nada que ele diz enquanto está ali encostado àquela porta. Tem cara de Adelino. Na verdade, não sei bem por que razão. Mas é como se ele rejeitasse todos os nomes, e aquele não. Adelino, um abraço de velho com menino. … Ler mais

o velho no muro

Na esquina, dizendo adeus. Lá está ele, velhote, vivendo enquanto partem os seus. Já não há ninguém da sua idade, da sua geração. Todos partem, ele não. E insiste em ficar, como quem não quer a coisa, como quem nem liga à vida, a observar. Sentado ao sol, num pequeno muro de pedra, vê as … Ler mais

volta a leiria

Anda vadio pela rua, e lá anda pela estrada. Ele e uma bicicleta. Mais nada. Ele de colete fluorescente, equipamento obrigatório em cada corrida, passando assim pela gente como se passasse pela própria vida. É uma bicicleta vulgar, mas parece um foguetão que o leva sempre a voar sem nunca sair do chão. Já o … Ler mais

os dois e a noite

Ele e ela, ali os dois, no mesmo lugar. Um lugar pequenino, sobre rodas, a trabalhar. De noite, lá estão eles. Não todas as noites, só algumas, até às tantas, no estacionamento do mercado. Vendem bifanas, cachorros, hambúrgueres, kebabs. Cervejas, águas e sumos. Oferecem conversas e companhias a quem vem da noite ou a quem … Ler mais

sem pregões

Duas douradas, uma escalada, outra não. Choco e lula. Corvina e sardinha de mão em mão. Meu amiguinho, obrigada. E lá vai ela agradecendo, enquanto amanha mais uma pescada. Terças, quintas e sábados, lá está ela na sua banca a vender o peixe que lá tem. Sempre bem apregoada, entre gente que vai e gente … Ler mais

flor

Ele existe nesta cidade como tantos outros como ele existem em tantas cidades. Bem vestido, geralmente de calças de fato, de sapatos e de camisa branca, anda por entre as multidões vendendo flores, tentando, de certa maneira, acordar corações, juntar amores. E algum dinheirito para si e para a sua família, imagino. Não o conheço, … Ler mais

pela vida, cidade

Anda pela cidade devagar, como se a cidade só andasse se ele andasse também, como se ela não pudesse respirar, como se ele fosse os pulmões que ela tem. E ele fala assim, envergonhado, com medo de falar, vai-se chegando aos outros encurvado, numa forma tremida que parece venerar. Anda pela cidade às escondidas, como … Ler mais

maringá menino

Há tanto tempo que ele anda por cá, que eu o vejo por aqui a caminhar. A sua casa é o Maringá. É sempre onde ele está, quando o quero encontrar. Nunca fui ter com ele, não sei como se chama, nunca lhe disse nada. Sei que, para mim, aquele lugar, para ele, é morada. … Ler mais

ao canto do outono

À esquina do Inverno, vem o frio e ela também. Ali, junto à rodoviária, bem no centro da cidade que nos tem. Ao fundo da avenida, lá está ela com as castanhas, dando calor à vida. Quem lá passa, lá a escuta. Ali, entre o castelo e o rio, na sua luta. E apregoa como … Ler mais

cortejo de um homem só

Ele sai de casa bem vestido, fato engomado, mãos nos bolsos ao comprido, como se fosse cantar o fado. Não canta, pouco fala, só um bom dia ou um boa tarde de vez em quando, em surdina, e lá vai ele andando, virando a esquina. Sempre muito direitinho e elegante, como se desfilasse devagarinho numa … Ler mais